(...) visitei o CdP e inteirei-me do projecto de investigação e de tudo o mais que por lá há, e teria muito gosto em trocar "correspondência" sobre o assunto. Em particular gostaria de saber que comunidades está a pensar estudar e quais as primeiras impressões sobre casos concretos.
Pedro Ferrão




Também tenho experiência de utilização de wiki com estudantes (no caso, disciplinas de ciências sociais a um curso de línguas aplicadas). A opinião dos estudantes é favorável: dizem, nomeadamente, que gostam de poder ver os trabalhos uns dos outros e que sentem maior motivação, além de apreciarem a aprendizagem da escrita wiki. Mas não tenho uma avaliação sistemática (talvez a Adelina...).

Sobre a minha ainda pequena experiência no assunto das CdP, tenho actualmente a seguinte percepção:
a) há comunidades espontâneas associadas a 'hobbies' que constituem verdadeiras comunidades de prática. A maior que conheço é a http://www.aquariofilia.net, com mais de 17 mil membros e que está tão madura que começa agora a tentar reificar de forma mais sistemática o conhecimento acumulado. Conheço outras similares, de menor dimensão, e penso que estes exemplos deveriam ser estudadas numa perspectiva comparada.
b) comunidades em contexto, ou de cariz, profissional, eventualmente induzidas por alguma organização, provavelmente apresentam maior dificuldade. Pude observar, muito brevemente, um caso de uma rede de professores do ensino básico e constatei que há um dificuldade em partilhar práticas. Penso que este aspecto, a ser generalizado (como a Adelina também refere no wiki, a propósito igualmente de professores), merece uma investigação concreta sobre tais dificuldades.
c) o caso das turmas parece-me um espaço demasiado regulado e um tanto específico (jovens) para poder ser considerado desde logo uma CdP. Contudo, parece-me que será muito útil a sua observação visto que o ensino é potencialmente um importante campo de aplicação do conceito de CdP, como a Adelina salientou.

Além de partilhar a vertente experiencial, gostaria também de trocar impressões na perspectiva de identificar problemas e hipóteses de investigação no domínio das CdP no contexto português, para ir abrindo, por assim dizer, o campo de investigação.

Já agora: recentemente li LE BOTERF, Guy, 2004, "Travailler en réseau - partager et capitaliser les patiques professionelles", Eyrolles - Editions d'Organisation, (170 pg.) que penso oferecer uma sistematização complementar à do Wenger.

Saudações,
Pedro


Olá!

Agradeço desde já a sua sugestão de leitura. Não conhecia o livro. Vou ver se o consigo arranjar.
O seu ponto de vista é muito interessante. Realmente, os alunos gostam de ver os trabalhos uns dos outros e nesse aspecto o “problema” da avaliação é mais transparente e mais democrático. Por outro lado, sentem-se mais motivados (como disse) na aprendizagem, na colaboração e na partilha. Isso é o que tenho constatado através da observação. Contudo, a minha inexperiência não me permite ainda ter uma avaliação mais apurada deste assunto.
Quanto às CdPs:
a) Sim, realmente é comunidades espontâneas associadas a “hobbies” que podem constituir verdadeiras comunidades de prática. Contudo, a minha dificuldade está em distinguir aquelas que se constituem como CdPs daquelas que são simplesmente grupos de indivíduos. Eu exemplifico: vejamos as claques de um qualquer desporto. Se “aplicarmos” os princípios das CdPs de Wenger, será que não se podem constituir como CdPs? Mas sê-lo-ão de facto?
b) Quanto às CdPs constituídas por profissionais: realmente estas são as CdPs mais estudadas. Há mesmo quem defenda que as CdP só o são em pleno em comunidades de especialistas. Não sei se poderei concordar… Contudo, e focando o caso dos professores, realmente há uma certa dificuldade na partilha e no trabalho em equipa. Aqui há que desbravar algum terreno, até porque isso poderá ter a ver com a metodologia de trabalho e de prática que é proporcionada pelo desfasamento de horários que vigora nas nossas escolas, impedindo que se trabalhe em equipa. De qualquer modo, na escola onde lecciono, há um grupo de trabalho bastante consistente, e de diferentes áreas do saber, que se reúne semanalmente, para partilhar conhecimento. Já consegui pôr outro colegas a trabalhar com wikis. J
c) Realmente o facto de centrar a minha investigação nas turmas que lecciono poderá ser um espaço regulado e específico, o que poderá questionar se se trata de uma verdadeira CdP. Contudo, não havendo estudos sobre o assunto, teria de iniciar o meu trabalho aqui, até porque como Chris Kimble me chamou à atenção (e com razão) a própria definição de CdP de Wenger tem vindo a alargar-se e a ampliar o seu campo.
d) Quanto à plataforma Moodle… se o permite, desconheço. È provável que sim, mas deixou-me, a mim e aos meus alunos, tantas vezes “pendurada”, que desistimos de a utilizar.
Quanto à vertente experiencial, também gostaria de trocar impressões com o Professor sobre o assunto, sobretudo no que concerne à realidade portuguesa.
(...)
È um prazer trocar impressões com o Professor e gostaria imenso de o continuar a fazer.
Cumprimentos

Adelina



«distinguir aquelas que se constituem como CdPs daquelas que são simplesmente grupos de indivíduos»

Na minha leitura do Wenger o próprio fornece o factor discriminante ao colocar a palavra "prática" - na acepção que lhe dá - no nome da coisa, se bem que, em rigor, é a combinação dos 3 elementos estruturais que define as CdP.
O autor distingue de outros grupos, por exemplo, a págs 41-44 do Cultivating communities of practice: a guide to managing knowledge. By Etienne Wenger, Richard McDermott, and William Snyder, Harvard Business School Press, 2002.
Um exemplo que ele mesmo dá é a 'comunidade de interesse' constituída por fãs de cinema que trocam informação para... estar informados, não porque 'pratiquem' cinema.
Como avalias, por exemplo, o fórum aquariofilia, à luz desta interpretação? E o grupo dos estudantes? Repara que neste caso, a prática é estudar e se a partilha inside sobre a "matéria do programa" então não se trataria de partilha de práticas. Já outra coisa diferente é, acho eu, quando trocam entre si informações sobre as várias "táticas" para estudar.

Realmente quando falamos em Comunidades de Práticas damos, por vezes, demasiado ênfase à palavra “prática”. Mas, também é verdade que nem todas as comunidades são comunidades de prática, assim como nem todas as comunidades de aprendizagem são CdPs. Há definir os limites, as fronteiras, que as distinguem. Como é que as pessoas se estruturam numa comunidade de prática? Terá a mesma estrutura de uma comunidade de interesse? Como se define interesse? É todo e qualquer interesse, seja ele formal ou informal?
Quanto ao fórum aquariofilia… será um fórum só por si uma comunidade de prática?
Quanto ao grupo de estudantes… tenho muitas dúvidas, se só por si poderá ser considerado uma CdP. Tenho reflectido bastante sobre o assunto, e ainda não cheguei a uma conclusão. Quando falamos na partilha de práticas em contexto escolar, não penso que nos devamos circunscrever ao currículo, propriamente dito. Há toda uma partilha de práticas informais ou de carácter de “currículo oculto” que não devemos esquecer. A partilha não se dá apenas quando trocam “tácticas” para estudar… a partilha dá-se sobre tudo quando os alunos se “sentem” como uma comunidade (os 12 princípios da comunidade: objectivo, identidade, comunicação, confiança, reputação, formação de grupos, fronteiras, governo, troca ou comércio, expressão e história). Penso que a partir do momento que estes 12 princípios coexistem, então estamos perante uma comunidade que partilha conhecimento e evolui.

«há uma certa dificuldade na partilha»

A observação que fiz dos professores do ensino básico, num encontro nacional dinamizado pelo [...suprimida a referência...] foi de que aqueles professores e professoras que se encontravam periodicamente e faziam workshops temáticos apenas discutiam o seu trabalho em abstracto! Interpretei isso como uma relutância em partilhar as práticas - pois reconheço isso mesmo entre os meus colegas. Havia partilha? Sim, nomeadamente do ponto de vista da troca afectiva (nos momentos informais) e da circulação de 'pensamento instituído' (nos workshops). Mas o que não observei foi partilha de práticas. Na ocasião fiz uma pequena experiência que te contarei noutra altura.

O que queres dizer com “discutir o trabalho em abstracto”?
Eu aqui vou levar um pouco para a brincadeira (perdoa-me, mas não resisti)… é que nós professores temos levado tanta pancada de todo o lado, que, agora, nos sentimos tão fragilizados, que nem contamos aos outros que andamos a fazer com os nossos alunos…Nem tão pouco aos nossos pares… Isto de nos dividirem em professores titulares e professores veio trazer alguma instabilidade…
Agora a sério… Do que tenho observado, ainda há muito a cultura do trabalho individual e não do trabalho de equipa. Constato, que isso tem vindo aos poucos a modificar. Pelo menos, na escola onde lecciono. Eu, por exemplo, partilho experiências com os meus colegas de departamento e outros de outras áreas (por exemplo, as wikis) e reunimos com o objectivo de partilhar com os outros o nosso conhecimento sobre diversas áreas do nosso interesse. È claro que o objectivo tem sido até o momento a sua aplicabilidade na nossa prática lectiva, de modo a envolver o aluno no processo de aprendizagem.
Mas gostaria de saber mais sobre a tal experiência que fizeste.


«a própria definição de CdP de Wenger tem vindo a alargar-se»

Por exemplo, Le Boterf, no livro que referi, distingue 4 tipos de redes: 1) de suporte a um actor individual ou colectivo, 2) de acção colectiva, 3) de partilha e capitalização das práticas e 4) de apoio e aprendizagem mútua. E refere-se ao Wenger a propósito do tipo 3.
Mas as tipologias, além de serem muito úteis, são uma abstracção, não é? E o valor de uma tipologia depende sempre do problema que se estuda e da perspectiva pela qual se estuda.

As tipologias são úteis, porém por vezes, “castradoras” e “espartilhadas”. Contudo, necessárias. Mas concordo com que escreveste.

A este propósito, qual é a motivação da pesquisa?
Motivação:
Factor pessoal: o tema é aliciante… eu adoro mesmo leccionar. Tudo o que eu possa fazer para melhorar a minha prática lectiva, eu faço. Isto de fazer o doutoramento é mesmo como forma de me melhorar como profissional e ao mesmo tempo melhorar a minha prática docente.
Factor académico(...) decidi por este tema por estar próxima dele e me dizer alguma coisa, a assim contribuir de alguma forma para a melhoria do ensino/aprendizagem.


Avaliar o potencial das CdP para o ensino?
Sim, claro. Evidenciando o contexto português.

Avaliar o potencial da aprendizagem colaborativa, em geral, para o mesmo ensino?
Sim, também.

Estudar CdP no nosso contexto português, sendo o ensino apenas um exemplo?
Isto não me ocorreu, desta forma.

Acho que há uma escolha de âmbito e de perspectiva da qual depende tratar estritamente as CdP ou tratar as CdP como uma forma de colaboração, entre outras, e para as quais variam os fins, os comportamentos e a eficácia social.

Portanto, nesta perspectiva será mais a segunda parte desta frase.


Gostei das tuas questões… Sabes é isso que falta no ensino básico e secundário… quem nos questione sobe as nossas decisões, as nossas práticas, as nossas opções. E, sobretudo, que nos obrigue a pensar e a reflectir (essa é outra das razões que me levou a fazer o doutoramento). O nosso “convívio” com os alunos do ensino básico e secundário, por vezes é de uma “pobreza” tal, que não nos estimula a ser melhores como profissionais e torna-nos resignados e conformados com a situação. Eu sou uma inconformada por natureza… J (desculpa o desabafo).



Espero que as mini-férias estejam a ser compensadoras.

Na outra mensagem escreveste:
« Motivação:
Factor pessoal: o tema é aliciante… eu adoro mesmo leccionar. Tudo o que eu possa fazer para melhorar a minha prática lectiva, eu faço. Isto de fazer o doutoramento é mesmo como forma de me melhorar como profissional e ao mesmo tempo melhorar a minha prática docente.
Factor académico: (...) decidi por este tema por estar próxima dele e me dizer alguma coisa, a assim contribuir de alguma forma para a melhoria do ensino/aprendizagem. »
Fiquei com a ideia de que o "objecto de investigação" primário é o ensino/aprendizagem. É isso?

Como formularias então o teu "problema de investigação"?

Apenas um exemplo: sendo escassa a utilização de CdP no ensino secundário português, e tendo em conta as teorias da aprendizagem social, qual a utilização possível do conceito de CdP no ensino, como pô-lo em prática e porquê?
Já formulaste algo assim?

Saudações,
Pedro



Olá Pedro!
(...)
Na minha investigação vou centrar-me nos processos de ensino/aprendizagem em comunidades de prática que utilizem o contexto virtual. Aos poucos estou a refinar a questão principal da minha tese. Comecei com uma quantidade considerável e estou a reduzir o seu número. Essa que apresentas está na minha mente, não na sua totalidade. Ou seja, sendo no âmbito da antropologia, não sei se o “porquê” se enquadra… De qualquer modo, o que eu pretendo é estudar a utilização de CdP no ensino secundário, à luz da teoria da aprendizagem social, e como é que isso se processa e quais os resultados.
Nota: neste momento estou a reflectir sobre as Comunidades Virtuais de Aprendizagem enquanto Comunidades de Prática, ou seja, o que as distingue e o que as une. Qual a fronteira entre as CVA e as CdP?
Cumprimentos
Adelina



Dei com um texto recente que refere os dois tipos de comunidade (ver especialmente pag.122).
http://sisifo.fpce.ul.pt/?r=11&p=117 (clicar em 'pdf' para sacar o texto completo)

Apetece-me olhar para a ideia de comunidade como uma salada que pode ter vários ingredientes em proporções diferentes. Por exemplo, uma CdP pode não ter vertente 'virtual' ou uma comunidade virtual pode não ter 'domínio' ou 'prática'.

O que é uma comunidade nos tempos actuais (urbanos...)? Ou, o que é comum a todas as comunidades? Interacção? Identidade e pertença? Conhecimento interpessoal? Comunhão de interesses e de propósitos?

Depois, quais são as dimensões que podem ser observadas nas comunidades e que as podem diferenciar? Tipo: pertença, envolvimento e participação, formas organizativas e de liderança, elementos de partilha (afectos, informação, práticas), formas de comunicação (virtual/presencial, oral/escrita), duração da comunidade, periodicidade das trocas, esquemas de auto-representação...

Uma tal sistematização parece difícil e também a sua utilidade poderá não ser óbvia, em particular para o propósito educativo, sem um grande recurso às ciências da educação.

Em todo o caso, parece-me, e um pouco de acordo com o texto referido, uma CVA aparece, face a uma CdP, como conceito mais lato no que diz respeito à aprendizagem, e eventualmente à identidade, e como conceito mais restrito no que diz respeito às formas de comunicação.

Pensas utilizar esta questão (distinção) no trabalho da tese?

Saudações,
Pedro