Dicotomia Comunidade Real/Comunidade Virtual

O sistema antropossocial nasceu de uma inquietação e duma interrogação sobre o Homem e o seu lugar na história, na natureza e na comunidade, considerando que a compreensão do indivíduo só é possível tendo em conta a posição central que este ocupa no cruzamento de vários sistemas.
Na rede de relações sociais podem-se enumerar cinco dimensões:
· A dimensão pessoal (um indivíduo em particular)
· A dimensão interpessoal (quando existe um encontro de indivíduos)
· A dimensão grupal (grupos, famílias, comunidade)
· A dimensão organizacional (burocratização do mundo e da vida)
· A dimensão instituicional-societária (análise da produção e reprodução das relações sociais dominantes).
O sistema antropossocial intervém principalmente a nível das três primeiras dimensões. Parte da hipótese de que cada indivíduo é portador da cultura ou da sub-cultura à qual pertence e de que é representante. As estruturas culturais (conjunto de representações, de valores, de hábitos, de regras sociais, de códigos simbólicos, de comportamentos) interiorizados pelo indivíduo podem ser elementos explicativos de comportamentos pessoais e sociais.
Então, quais os princípios em que se baseiam as comunidades?
Typaldos (2000) apresenta doze: as comunidades, para que possam ser consideradas como tal, terão de ter um objectivo, uma identidade, terá de existir comunicação, confiança, reputação, uma evidente formação de grupos, fronteiras, governo, troca ou comércio, expressão e história.
Por objectivo entende-se um interesse partilhado ou comum. Porque é que se está aqui? O que é que se pretende alcançar? Porque é que os indivíduos se juntam, com uma certa regularidade e contribuem de uma forma ou de outra?
Identidade é saber quem é quem. Como em qualquer comunidade queremos saber com quem estamos a comunicar. Contudo, como as comunidades virtuais se baseiam em texto, faltam as pistas sensoriais tradicionais. É impossível olhar para o indivíduo e ver a sua linguagem corporal. É impossível ouvir a sinceridade – ou a falta dela – na sua voz. É impossível observar como a pessoa interage com os outros elementos do grupo. Uma vez que ninguém é obrigado a revelar o nome pelo qual é conhecido ou o seu endereço no mundo real (off-line), adopta uma identidade consistente e reconhecível em ambiente virtual. Muitas vezes, é com base em comportamentos do indivíduo que se vai construindo a sua identidade.
A comunicação é uma forma de partilhar informação ou ideias. Como é que interagimos com os outros membros do grupo? Quais as ferramentas, os meios que utilizamos para partilhar ideias e conversar? Sem comunicação é impossível a existência de uma comunidade seja ela real ou virtual.
Por confiança entende-se «saber com quem se está e em quem confiar». Será que podem contar comigo tanto como eu posso contar com os outros? Quanto é que eu posso revelar sem que isso me cause qualquer desconforto? Uma comunidade não funciona sem confiança. A confiança advém da identidade e é a base da reputação.
A reputação é o reconhecer e o construir de um status baseado em acções.
Os grupos englobam e incentivam o relacionamento humano normalmente entre um número reduzido de indivíduos.
Qualquer comunidade existe num determinado ambiente - interacção em espaço partilhado apropriado para os objectivos – e tem delimitadas as suas fronteiras - saber quem pertence ou não, quem é residente ou quem está de visita.
A regulação e moderação do comportamento dos indivíduos de acordo com os princípios e os valores partilhados ou declarados nessa comunidade – governo - é essencial para a manutenção e sobrevivência dessa comunidade. Para além disso, a troca - sistema de troca de saberes, de serviços, de ideias, de apoio ou mesmo de bens -, a expressão - ter uma identidade linguística do grupo –, e a história - olhar para trás e sentir que houve uma evolução desde a sua criação – são elementos a ter em atenção em qualquer comunidade.

Então se assim é, haverá alguma diferença entre as comunidades reais e as comunidades virtuais? Não serão as comunidades virtuais reais? O que será que as distingue? À partida, e desde logo, é a tecnologia e o meio envolvido: o computador e o acesso à Internet.
Passa-se a falar do ciberespaço. O ciberespaço relaciona-se com as teorias de comunidade se o entendermos como um espaço social emergente, tal como os subúrbios de uma cidade. É um espaço social alternativo onde há indivíduos que trabalham, jogam, compram, se encontram, falam, aprendem, etc., de uma determinada forma e em locais específicos. Pode-se, inclusivé, ser proprietário de espaço, pode-se ficar durante o tempo que se quiser ou puder, pode-se visitar uma cidade ou um amigo, e finalmente, também se pode ficar perdido e completamente desorientado. Mas, tal como no mundo real, podemos sempre voltar a casa ou ao ponto de partida.
Na verdade, poder-se-ia simular a situação estrutural de uma comunidade virtual on-line, sobretudo dos grupos que utilizam a comunicação mediada por computador (CMC), juntando numa sala escura um grupo de indivíduos desconhecidos uns dos outros, pedindo-lhes para comunicarem entre si escrevendo apenas bilhetes e afixando-os num quadro.
Porém, não esqueçamos que os indivíduos constroem as suas vidas em grupos pequenos: inicialmente na família, depois nos grupos de amigos, nos grupos de colegas de trabalho e outros. A natureza dos grupos pequenos está em dar corpo à comunicação face-a-face utilizando expressões faciais, gestos corporais, tom de voz, sotaque e ritmo, imprimindo-lhe uma riqueza comunicacional que dificilmente será reproduzida em contexto electrónico. Na verdade, o que parecia impossível de superar, não o é de todo, devido à capacidade inventiva e criadora do Homem. Assim, em contexto de CMC, nomeadamente nas salas de Chat quer através dos smilies quer através de outras formas gráficas, assiste-se a inúmeras maneiras de comunicar ao outro o nosso sotaque, o nosso tom de voz, expressão facial, ritmo, etc.
As comunidades virtuais não são comunidades de imaginação e de delírio, nem tão pouco os seus membros estão alienados da realidade social e cultural que os circunda. Existe um controlo social que se reflecte na comunicação, na relação de poder que se estabelecem entre os seus membros.
O tipo de ligação e de vivência que as comunidades virtuais possibilitam a todos os seus membros não significam necessariamente um completo afastamento, por parte dos membros das comunidades virtuais, das suas vidas e culturas locais. Muito pelo contrário, segundo o argumento central da comunicação, esta vivência local, é tanto mais local quanto mais global for e vice versa. São as vivências locais que preenchem o ciberespaço e toda a cibercultura.
Em suma, temos que entender que existem várias perspectivas diferentes da realidade, resultantes da comunicação e não de reflexos de verdades eternas imutáveis ou objectivas (Watzlawick,1991:7). Como afirma o autor (1991:8), «...acreditar que a nossa própria perspectiva da realidade é a única realidade, é a mais perigosa das ilusões e torna-se ainda mais perigosa se estiver associada a um zelo missionário de iluminar o resto do mundo, quer o resto do mundo deseje ser iluminado ou não». A realidade que vivemos nas nossas vidas diárias, ausente de perturbações causadas pela emergência de novas tecnologias, não é única, inclusive, tenho muitas dúvidas se este tipo de realidade ainda existe, pois a tecnologia e as suas constantes inovações, estão nos nossos dias, presentes em todas as sociedades. O ciberespaço, a cibercultura e as comunidades virtuais, são outras realidades possíveis neste mundo de flutuantes inovações e renovações do que existe.
Importa desdramatizar o ciberespaço, a cibercultura e a comunidade virtual, não são coisas "fora deste mundo", fazem parte deste mundo, desta sociedade e da sua reformulação, reorganização e restruturação conceptual. A Internet, o ciberespaço, a cibercultura e a comunidade virtual, não possibilitam a vivência num mundo diferente e bem mais perfeito que o mundo "real" em que vivemos.

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